quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

eu, por mim

Gostaria de dizer que o momento mais feliz da minha vida-pós-26-de-setembro foi quando eu estava láaaa no topo da Pedra do Baú, sentindo todo aquele vento. Ali, nada me alcançava. O minuto mais egoísta, e também o mais leve. Por um instante, eu queria mesmo ficar por lá, pra sempre. Só eu, a lembrança e a pedra.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

desapego

"Eu garanto a vocês: se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas, se morre, produz muito fruto."

(João, 12:24)

domingo, 3 de janeiro de 2010

2010

Já dizia o sábio Haroldo: "se as coisas boas durassem para sempre, saberíamos dar o valor que elas têm?"

Deixando de lado tudo o que eu perdi, quero que saibam que a vida tem me ensinado alguma coisa, e acho que eu não sou mais aquela menininha tristonha que só via no mundo razões para se lamentar.
Desejo um ano bonito a todos e, acima de tudo, muita força e serenidade para que a gente sempre possa se ajudar... Sempre dar e receber amor.

Hoje pousou um passarinho no pé de acerola do meu pai; ele parou, descansou e cantou bem baixinho: "a vida continua".

sábado, 28 de novembro de 2009

carrascos e vítimas

(Banksy)

"Longe de estar atento a evitar que Emílio se machuque, eu ficaria muito aborrecido se ele nunca se ferisse e crescesse sem conhecer a dor. Sofrer é a primeira coisa que ele deverá aprender, e a que ele terá maior necessidade de saber."


ROUSSEAU, J-J. "Livro Segundo". In. Emílio ou da Educação. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992, p.70.

Na última sexta-feira 13 eu fui ao presídio de Guarulhos, visitar a feira cultural dos detentos. Fiquei muito contente e comovida pela qualidade dos trabalhos dos presos e pelo empenho que demonstravam em todas as atividades. Houve um moço que apresentou um rap cheio de revolta, no qual ele desabafava sua insatisfação com a sociedade, que só lhe ofereceu opressão, quando ele mais precisava de carinho! Ele usou exatamente essas palavras.
O ambiente na prisão é bastante hostil, e aos presos não é concedido o privilégio de andar pelo mesmo corredor que nós, as pessoas intrinsecamente boas e honestas, sem nenhuma dívida com a lei. Os presos podem ser reconhecidos pelo uniforme, uma calça bege e camiseta branca. Também podem ser reconhecidos pelo semblante desiludido e os olhos baixos, envergonhados.
Os carcereiros, amigos da ordem e do progresso, podem ser reconhecidos pela arrogância e sorrisinho cafajeste, de canto de boca. Podem ser reconhecidos, também, por um ar de "aqui, quem manda sou eu" e, mais sutilmente, um ar de "que trabalho importante, esse meu! Nada me faz mais feliz do que esse cassetete".
Havia, lá na escola da prisão, um biólogo que foi preso, cumpriu sua pena e hoje é um "homem livre". Aí ele continua frequentando o presídio, agora como professor. Esse homem é um grande exemplo de gente que acredita em gente, e merece minha grande admiração.
Às 17 e pouco, alguém grita: "Pavilhão 2!" e somos apressados a nos retirar. É hora dos presos se recolherem às celas, aqueles cubículos destinados à reflexão: "fiz muito mal para a sociedade, estou aqui me redimindo".
Também os grandes malfeitores do Brasil têm seus cubículos reflexivos, eu imagino. Com suas almofadas de seda, ares condicionados e tudo mais. Mas pensar sobre isso é um exercício que eu não estou a fim de fazer, agora.

Eis uma diferença notável, talvez a maior, entre os grandes e os pequenos malfeitores: os primeiros cresceram sem conhecer a dor. Valeu pela dica, Rousseau!

Eu, a menina que não está em conflito com a lei e faz parte da elite intelectual brasileira, cultivada pelo ensino superior, fiquei muito meditativa depois da visita ao presídio e garanto que a experiência foi determinante na minha vida. Vidinha essa que às vezes me deprime, não sei bem por quê, mas arrisco dizer que a tristeza decorre da constatação: não vejo grandes diferenças entre mim, tão limpa, certinha, impecável... e os presos sujos, tortos, errados.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

é certo

Pegue uma folha de papel e, sem compromisso, escreva algumas certezas que você possui na vida. É bom, faz a gente se sentir menos perdida.
Tenho algumas muitas certezas, a saber:

°Gosto de explicar o que leio;
°não gosto de explicar filmes;
°não gosto e nunca gostarei: baratas, seminários e guarda-chuva;
°gosto e sempre gostarei: livros, tintas e plantas;
°prefiro escrever em folhas sem linhas;
°tenho sérias dificuldades de concentração;
°gosto muito da Clara Nunes cantando, do Belchior e do Raul Seixas;
°gosto de roupas leves;
°não gosto de maquiagem;
°não sei paquerar;
°gosto de fotografias;
°um dia quero morar perto do mar.

Em evidência, as certezas que são minhas, mas que um dia também foram as do meu pai. Só devo a ele.
O pai da gente não devia morrer nunca.


Esqueci de escrever que também é certo que detesto ouvir a frase "chegou a hora dele", mas gosto muito e sinto-me honrada ao escutar: "seu pai era uma excelente pessoa".

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

é de mágica que eu dobro a vida em flor

A todos meus amigos e amigos do meu pai:

ele foi-se embora e aqui volta mais não. Foi morar no infinito e virar constelação.
Peço, por gentileza, que não me deixem mensagens de pêsames, dizendo que sentem muito.
Se aviso a todos aqui, publicamente, é para que se lembrem sempre do meu pai com muita alegria e carinho, porque é assim que deve ser.

Se eu guardo meu grande amigo no coração, ele estará sempre comigo. E não vai me deixar cair, de jeito ou maneira.

Com todo amor do mundo,

Carol

domingo, 13 de setembro de 2009

pela janela, vejo fumaça, vejo pessoas


À parte meus dotes artísticos, eis uma representação da esperança humana, em contraposição ao mundo feio e disforme que construímos. Quando a gente joga um desses balões voadores no ar, há duas coisas a se pensar: ou ele se perdeu para sempre, ou alguém o encontrou e teve um breve momento de felicidade bobinha e grandiosa. A luz que emana dos balões representa os sonhos perdidos, ou aquela parte de nós mesmos que ninguém nunca encontra (nem nós mesmos). Mas é aquela parte pela qual vale a pena continuar a viver, porque ela brilha e contagia até o mais desiludido dos corações. Por ela é que a gente se levanta todos os dias e segue, com fé.
Quando o vazio é grande demais, uma caixa de giz de cera é de grande serventia. Porque aí você fica surpreso ao constatar que o vazio não era tão vazio assim, e que, enfim, nem tudo é tão escuro. Nunca consegui fazer um desenho verdadeiramente triste; acho que no fundo, bem no fundo... Sempre toca em meu coração uma música tão bonita, tão calma. E que eu nunca ouvi na minha vida.

sábado, 22 de agosto de 2009

nota

Encher a vida de nada faz mal.
É um problema um pouco grande, querer carregar a dor do mundo nas costas, quando você não aguenta nem com a sua exacerbante carga de covardia e tristeza...



Eventual visitante (de vez em quando pode pintar algum) que se interessa por educação lexico-gramatical nas séries iniciais, quer conversar comigo? Escreva-me: carol_l7@hotmail.com

Abraço forte!

sábado, 8 de agosto de 2009

eu acho uma merda

É uma merda, estimular os professores com dinheiro para que eles não faltem e executem seu trabalho com dignidade. São umas merdas, os salários dos professores, em geral. É uma merda, alguém se formar tendo em vista ser um biólogo e não arranjar emprego depois. É uma merda, essa pessoa se tornar um dos tantos professores frustrados do Brasil. É uma merda, quando os alunos não reconhecem no professor um saber que, de certa forma, pode engrandecê-los. É uma merda, ouvir de uma criança de escola particular a seguinte frase: “eu pago o seu salário”. É uma merda, quando os pais são mesquinhos e passam isso aos filhos. É uma merda, quando os filhos aprendem de forma primorosa e aplicam tudo isso em forma de agressão, aos colegas e ao professor. É uma merda, o tal sistema capitalista que força todo mundo a se matar pelo dinheiro do fim do mês, que, por sua vez, também é uma merda. É uma merda, gente morrer de tanto trabalhar. É uma merda perversa, essa ordem que estabelece que uns sejam extremamente abastados, enquanto outros padecem na mais deprimente miséria. É uma merda, toda essa obesidade, enquanto gente morre de fome a toda hora. É uma merda, o olhar de desprezo que Fátima Bernardes dirige a um “delinquente” noticiado no jornal mais famoso do Brasil. É uma merda, esse circo do senado, que se apresenta todas as noites nesse mesmo jornal, que, pasmem, é uma merda. É uma merda, gente que joga lixo no chão. É uma merda, gente que desperdiça água e comida. É uma merda, toda essa violência mútua. É uma merda, a novela das oito mostrar alguém apanhando e todo mundo achar o máximo. É uma merda, saber que, apesar dos pesares, até os moradores de rua assistem a novela das oito, e gostam. São umas merdas, quase todas as propagandas televisivas. É uma merda, quando alguém passa numa faculdade pública e não tem nenhum compromisso para com aqueles que financiam seus estudos, a gente simples que paga impostos. É uma merda, quem só pensa no próprio umbigo e tropeça nos outros. É uma merda, a ganância que tornou os homens todos solitários. É uma merda, apresentar esse mundo nojento às crianças.

Só não é uma merda a minha esperança e a luta de quem acredita na justiça.

Vírgulas amigas: talvez estejam em abundância, talvez faltem. É estilístico! Ah! Pedantismo também é uma merda.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

singelo

Hoje eu precisava muito ir a um lugar. Sabia o nome do bairro e o ônibus a ser tomado, mas não sabia muito bem onde deveria descer. Aí perguntei ao motorista. Ele respondeu, a senhora que estava sentada no banco da frente respondeu, o velhinho sorridente respondeu, o moço respondeu, a moça respondeu, o homem que estava assobiando parou de assobiar e respondeu.
Que sortuda que eu sou, acho que ficou um pouquinho de Pernambuco em mim.