terça-feira, 2 de março de 2010

keep it up

Há pouco tempo comecei a treinar malabares. Faz muito bem para mim e, dizem, as bolinhas vão me transformar numa pessoa equilibrada, concentrada...
O princípio do Malabarismo se aplica perfeitamente à vida: continue equilibrando. Aconteça o que acontecer, mermão, continue! E se a bolinha cai... Anos de experiência vão fazer com que você aprenda a salvá-la antes dela chegar ao chão. Há que se cultivar muita malandragem e alegria para que seu espetáculo nunca acabe, para que você tenha sempre um truque novo.
Quem conhece a lenda do Malabarista de Notre Dame?
Era uma vez um camarada pobre, pobre pra caramba! Não tinha nada para oferecer à imagem da Virgem Maria, que parecia triste, mesmo com todos os presentes que recebia dos fiéis. O camarada viu entre os presentes alguns artefatos que lhe seriam muito úteis (bolas, botões, argolas), e pôs-se a fazer malabares em frente à estátua. A Virgem sorriu e ofereceu uma rosa ao talentoso artista!

Riu Maria, mãe de Jesus; só não riu Maria, minha mãe. Se eu ficar boa, será que ela se alegra?
O jeito é praticar... E manter as bolinhas no céu.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

especialmente para você

"... Mas quando você perdoa, você ama.
E quando você ama, a luz de Deus brilha em você."

Do filme Na Natureza Selvagem (Into the Wild), 2007, dirigido por Sean Penn.

Apaixone-se aqui.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

falta

Aí hoje eu amanheci com tanta saudade dele, porque faz cinco meses que ele se foi pra sempre, e eu sonhei com ele, no sonho eu sabia que ele ia me deixar e eu o abraçava tão forte, mas tão forte, que não! eu não ia permitir que ele se afastasse de mim, eu era a dona da situação; o pai é meu, a pessoa que eu mais amava no mundo era ele, a menina dele era eu, meu pai-aço era ele; aí eu pensei "caramba, vai, faz lá seus malabares tortos... ninguém mais aguenta te ouvir falar sobre ele, sobre a sua tristeza"; aí, puxa, o dia até que passou bem, bastante bem, consegui cumprir meus horários e me cadastrei na maior biblioteca de São Paulo, li uns livros infantis sobre o abandono, para sentir que minha dor era solidária a outras dores; aí foi, foi...
aí eu sinto, agora, um buraco tão grande aqui dentro de mim, que eu acho que nada, nunca, vai ser imenso o bastante pra tapar. Aí eu corro, corro, corro, não posso chorar perto da mãe, eu corro, corro, chego ao lugar mais distante e peço pra alguém me ouvir, em algum lugar, alguém me ensinar como que eu faço pra suportar, pra não deixar de querer continuar, porque, Deus do céu... ele me avisou um dia, ele disse "Carol, vai sentir falta do seu pai velho quando ele for embora?", eu disse "vou sentir falta da sua comida!", mas era mentira, era mentira das grandes... a falta é tão aguda, doída, seca, não dá nem pra traduzir usando palavras.

Alguém pode escrever: "em setembro de 2009, tiraram um pedaço dela. O pedaço que sabia tudo sobre as plantas, e que a ensinou. O pedaço que sabia as continhas complicadas, e a ensinou. O pedaço que sabia tudo de artesanato, e a ensinou. O pedaço que a levou para ver o mar, que fez com que ela gostasse de tudo aquilo que ele gostava, não por imposição; apenas porque o tal pedaço sabia que ela era o seu pedacinho mais amado, aquele de quem ele nunca iria se separar, mesmo estando muito, muito longe..."

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

eu, por mim

Gostaria de dizer que o momento mais feliz da minha vida-pós-26-de-setembro foi quando eu estava láaaa no topo da Pedra do Baú, sentindo todo aquele vento. Ali, nada me alcançava. O minuto mais egoísta, e também o mais leve. Por um instante, eu queria mesmo ficar por lá, pra sempre. Só eu, a lembrança e a pedra.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

desapego

"Eu garanto a vocês: se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas, se morre, produz muito fruto."

(João, 12:24)

domingo, 3 de janeiro de 2010

2010

Já dizia o sábio Haroldo: "se as coisas boas durassem para sempre, saberíamos dar o valor que elas têm?"

Deixando de lado tudo o que eu perdi, quero que saibam que a vida tem me ensinado alguma coisa, e acho que eu não sou mais aquela menininha tristonha que só via no mundo razões para se lamentar.
Desejo um ano bonito a todos e, acima de tudo, muita força e serenidade para que a gente sempre possa se ajudar... Sempre dar e receber amor.

Hoje pousou um passarinho no pé de acerola do meu pai; ele parou, descansou e cantou bem baixinho: "a vida continua".

sábado, 28 de novembro de 2009

carrascos e vítimas

(Banksy)

"Longe de estar atento a evitar que Emílio se machuque, eu ficaria muito aborrecido se ele nunca se ferisse e crescesse sem conhecer a dor. Sofrer é a primeira coisa que ele deverá aprender, e a que ele terá maior necessidade de saber."


ROUSSEAU, J-J. "Livro Segundo". In. Emílio ou da Educação. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992, p.70.

Na última sexta-feira 13 eu fui ao presídio de Guarulhos, visitar a feira cultural dos detentos. Fiquei muito contente e comovida pela qualidade dos trabalhos dos presos e pelo empenho que demonstravam em todas as atividades. Houve um moço que apresentou um rap cheio de revolta, no qual ele desabafava sua insatisfação com a sociedade, que só lhe ofereceu opressão, quando ele mais precisava de carinho! Ele usou exatamente essas palavras.
O ambiente na prisão é bastante hostil, e aos presos não é concedido o privilégio de andar pelo mesmo corredor que nós, as pessoas intrinsecamente boas e honestas, sem nenhuma dívida com a lei. Os presos podem ser reconhecidos pelo uniforme, uma calça bege e camiseta branca. Também podem ser reconhecidos pelo semblante desiludido e os olhos baixos, envergonhados.
Os carcereiros, amigos da ordem e do progresso, podem ser reconhecidos pela arrogância e sorrisinho cafajeste, de canto de boca. Podem ser reconhecidos, também, por um ar de "aqui, quem manda sou eu" e, mais sutilmente, um ar de "que trabalho importante, esse meu! Nada me faz mais feliz do que esse cassetete".
Havia, lá na escola da prisão, um biólogo que foi preso, cumpriu sua pena e hoje é um "homem livre". Aí ele continua frequentando o presídio, agora como professor. Esse homem é um grande exemplo de gente que acredita em gente, e merece minha grande admiração.
Às 17 e pouco, alguém grita: "Pavilhão 2!" e somos apressados a nos retirar. É hora dos presos se recolherem às celas, aqueles cubículos destinados à reflexão: "fiz muito mal para a sociedade, estou aqui me redimindo".
Também os grandes malfeitores do Brasil têm seus cubículos reflexivos, eu imagino. Com suas almofadas de seda, ares condicionados e tudo mais. Mas pensar sobre isso é um exercício que eu não estou a fim de fazer, agora.

Eis uma diferença notável, talvez a maior, entre os grandes e os pequenos malfeitores: os primeiros cresceram sem conhecer a dor. Valeu pela dica, Rousseau!

Eu, a menina que não está em conflito com a lei e faz parte da elite intelectual brasileira, cultivada pelo ensino superior, fiquei muito meditativa depois da visita ao presídio e garanto que a experiência foi determinante na minha vida. Vidinha essa que às vezes me deprime, não sei bem por quê, mas arrisco dizer que a tristeza decorre da constatação: não vejo grandes diferenças entre mim, tão limpa, certinha, impecável... e os presos sujos, tortos, errados.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

é certo

Pegue uma folha de papel e, sem compromisso, escreva algumas certezas que você possui na vida. É bom, faz a gente se sentir menos perdida.
Tenho algumas muitas certezas, a saber:

°Gosto de explicar o que leio;
°não gosto de explicar filmes;
°não gosto e nunca gostarei: baratas, seminários e guarda-chuva;
°gosto e sempre gostarei: livros, tintas e plantas;
°prefiro escrever em folhas sem linhas;
°tenho sérias dificuldades de concentração;
°gosto muito da Clara Nunes cantando, do Belchior e do Raul Seixas;
°gosto de roupas leves;
°não gosto de maquiagem;
°não sei paquerar;
°gosto de fotografias;
°um dia quero morar perto do mar.

Em evidência, as certezas que são minhas, mas que um dia também foram as do meu pai. Só devo a ele.
O pai da gente não devia morrer nunca.


Esqueci de escrever que também é certo que detesto ouvir a frase "chegou a hora dele", mas gosto muito e sinto-me honrada ao escutar: "seu pai era uma excelente pessoa".

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

é de mágica que eu dobro a vida em flor

A todos meus amigos e amigos do meu pai:

ele foi-se embora e aqui volta mais não. Foi morar no infinito e virar constelação.
Peço, por gentileza, que não me deixem mensagens de pêsames, dizendo que sentem muito.
Se aviso a todos aqui, publicamente, é para que se lembrem sempre do meu pai com muita alegria e carinho, porque é assim que deve ser.

Se eu guardo meu grande amigo no coração, ele estará sempre comigo. E não vai me deixar cair, de jeito ou maneira.

Com todo amor do mundo,

Carol

domingo, 13 de setembro de 2009

pela janela, vejo fumaça, vejo pessoas


À parte meus dotes artísticos, eis uma representação da esperança humana, em contraposição ao mundo feio e disforme que construímos. Quando a gente joga um desses balões voadores no ar, há duas coisas a se pensar: ou ele se perdeu para sempre, ou alguém o encontrou e teve um breve momento de felicidade bobinha e grandiosa. A luz que emana dos balões representa os sonhos perdidos, ou aquela parte de nós mesmos que ninguém nunca encontra (nem nós mesmos). Mas é aquela parte pela qual vale a pena continuar a viver, porque ela brilha e contagia até o mais desiludido dos corações. Por ela é que a gente se levanta todos os dias e segue, com fé.
Quando o vazio é grande demais, uma caixa de giz de cera é de grande serventia. Porque aí você fica surpreso ao constatar que o vazio não era tão vazio assim, e que, enfim, nem tudo é tão escuro. Nunca consegui fazer um desenho verdadeiramente triste; acho que no fundo, bem no fundo... Sempre toca em meu coração uma música tão bonita, tão calma. E que eu nunca ouvi na minha vida.