sábado, 12 de junho de 2010

me ensinem a ouvir




Então... quanto falta pro seis chegar ao nove?
Oi?
Tinha nove coisas e tirei seis, quantas ficaram?
Ah, sim... [ele esquematiza com os dedos] Três.
É isso aí. Mas do jeito que eu perguntei primeiro é mais fácil de entender, não?
Não!
Mas, se fossem números maiores, você não conseguiria colocar todos nos dedos. Tipo 13 - 7. É mais fácil ir contando do sete até o treze.
É nada.
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Ei, rapazinho! Você precisa começar a resolver pela casa das unidades.
Por quê? Vai dar a mesma coisa.
Não... às vezes o resultado da direita influencia o da esquerda, porque sobe ou empresta um, lembra?
Ah, mas do meu jeito sempre dá certo.
Mas não pode, Khristian, deixa eu te mostrar...
Não, deixa EU mostrar do meu jeito!

[E aí ele fez, e deu certo.]
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Ana, antes de você ir embora, a gente pode escrever muitas palavras?
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Eu tenho cara de professora?
Aqui, sim. Mas se eu te encontrasse na rua, você não teria cara de professora. A nossa professora tem cara de professora na rua e aqui.
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Um dia, Ana, eu não vou mais te conhecer; quando eu tiver a sua idade. Mas eu vou te conhecer no coração, por causa do seu carinho com a gente...
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Ixi, cê já vai embora amanhã, é?
É...
Cês ficam pouquinho tempo demais, podia ficar mais um mês.
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Tchau, Ana! Eu vou sentir saudade. Quando você voltar pra visitar a gente, você vem de vestido? Eu queria te ver de vestido.
Tá um pouco frio...
Você coloca uma meia calça por baixo!
Tudo bem, Raiane, eu venho de vestido. E com um casaco grande.

sábado, 5 de junho de 2010

ninguém precisa entender

letra aponta a dor
raio que abraça
vida sem rumo

se tá tudo bem, de onde vem a sombra dos teus olhos?

domingo, 23 de maio de 2010

estou crescendo



Sinto que daqui um bem pouquinho eu já vou ter braços grandes à beça, mas eu só vou parar quando eles dois derem conta de abraçar o mundo inteiro.

sábado, 1 de maio de 2010

para saber se gosta muito de alguém

primeiramente, direcione seu pensamento àquele dia mais triste da sua vida;
lembra de cada detalhe, de cada pensamento, de cada folha que caiu;
lembra das pessoas que vinham te dizer que tudo ia clarear;
e, agora, do fundo da alma: se o alguém estivesse lá, de alguma forma, seria menos duro?

domingo, 25 de abril de 2010

a busca

Sei lá. O melhor é não procurar muito. Tragam pacotinhos vazios. A paz deve estar lá dentro.

Carlos Drummond de Andrade

Tombou devagarinho como uma árvore tomba

Hoje um camarada muito boa gente foi dar um salve pro meu pai lá no céu. O Jonas.
Meu carinho pelo Jonas começou quando eu era bem pequena e ele falou ao meu pai que era o Padre o motorista do misterioso carro que atropelou meu cachorro. Minha desavença com o dito cujo padre também começou por aí.
Ninguém nunca botou muita fé no que o Jonas dizia, mas meu pai botou. Sempre. E meu pai gostava de pregar peças nele... Como o fazia com todo mundo. Dizia ao Jonas: "ei, tá vendo aquelas grades lá na casinha do fundo do meu quintal? lá é uma prisão, tá cheio de bandido..." e o Jonas: "é mesmo?? é mesmo? é a sociedade, a sociedade... logo a Dona Morte passa por lá".
Aí um dia o Jonas viu que eu cresci. "Cresceu a menininha, tá grande a menininha... tá bonita, a menininha...", dizia ao meu pai.
E foi assim, o Jonas morando na nossa rua, meu pai trocando ideia com ele. Só meu pai. É uma pena ninguém ter botado fé no Jonas, porque ele foi uma excelente pessoa. Eu sei porque meu pai só era amigo de excelentes pessoas. Pessoas cheias de coração.
O Jonas sofreu com o abandono, eu acho, e com a indiferença. Espero que ele esteja em paz agora. Talvez, quem sabe, conversando com meu pai: "é, alemão, a sociedade... a Dona Morte passou, ela passou e levou a gente, aquela velhinha..."

segunda-feira, 5 de abril de 2010

chuva

– Delícia de garoa!
– Tá doida, mulher?

Se na vida eu nunca fui dada às fortes e turbulentas relações interpessoais, posso afirmar com certeza que com a chuva sempre foi diferente, e o que sinto por ela é difícil de narrar!
Seria impossível mapear ou dizer "foi naquele dia, com o Ramon, brincando na correnteza.... naquele dia!"; nunca tive pretensão de fazê-lo...
Mas acho que na semana retrasada eu consegui verbalizar um pouquinho da graça e magia que vejo nos dias chuvosos. Foi bem naquela hora fatídica, 18h, sexta-feira, a galera louca pra voltar pra casa... E dá-lhe "que merda, essa chuva agora!", "é hoje que eu não chego em casa!". Gente, só uma coisinha: o trânsito não é culpa da chuva. É culpa dos carros. Os carros são invenções humanas, logo, a culpa é do danado do bicho-homem.
Aí pensei assim: o dia de chuva (mais precisamente, o dia que acaba em chuva) é muito caro para mim porque eu preciso de estímulos para continuar, desde sempre, desde a época do meu primeiro livro, do primeiro bolinho de chuva... E quando as gotas caem em mim, e quando eu olho pro céu e elas todas vêm bem rápido e não me dão tempo pra pensar em mais nada, só nelas, eu sinto uma coisinha tão boa dentro de mim, uma vontade de dar risada, chego até a esquecer de como é duro e cheio de sofrimento, esse mundo vasto mundo... Chega a ser uma alegria, sim, alegria, daquelas que a gente só vive... e depois esquece. E a gente não esquece porque é ilusório, quero dizer, a sensação de paz é sempre verdadeira. O que acontece é que a vida dá umas pancadas na gente, e a gente fica um pouco ligeira e tem medo de dizer "tá tudo bem, agora..."
Que linguagem confusa, quantos rodeios para explicar uma questão tão simples... A chuva traz com ela algo de grande, de renovação, de esperança, de "continua, eu tô com você". Eu, otimista que sempre fui, boto muita fé na chuva. E a chuva bota muita fé em mim. Sem querer deixar essa reflexão mais difícil de entender, gostaria de dizer que hoje eu também parei pra pensar nos dois enterros: vô e pai. Choveu tanto no enterro do meu avô, uma tempestade daquelas de cinema, sabe? No dia do velório do meu pai fez sol, choveu só no dia seguinte. E uns dias depois, quando ele foi cremado. Aí me disseram: "quando chove, é porque a pessoa foi pro céu". "Ah", pensei, "esse pessoal fica inventando estória pra amenizar a angústia da gente". Que pessoa amarga que eu fui, por pensar assim.
"Carolina, Carolina... Guarda esse choro pra quando eu morrer."

Carolina, Carolina... Joga no mar as cinzas do seu pai, nas águas com gosto de lágrimas, que Deus vai te mandar água doce todos os dias em que você estiver sozinha e triste, porque da sua dor e da sua paz ninguém mais sabe – só você.

sexta-feira, 19 de março de 2010

para nossa mania pedantesca de classificar

Há um lugar, um pequeno lugar, tão pequeno como uma casinha de vidro na floresta em cima do alfinete, disse a criança. É lá que eu guardei a minha pena da cara de todos.
Esta criança vai deixar de sorrir, disse o Medidor de Crianças.
(...)
Há um lugar, um pequeno lugar tão pequeno como o ovo azul do bicho da seda, disse a criança. É lá que eu guardei o meu amigo.
Esta criança vai deixar de falar, disse o Medidor de Crianças.
(...)
Há um lugar, um pequeno lugar tão pequeno como a pedra de açúcar que a mosca leva para os seus filhinhos partirem e fazerem espelhos, disse a criança. É lá que eu guardei a minha mãe.
Esta criança morreu, disse o Medidor de Crianças.
Há um lugar, um pequeno lugar tão pequeno como a bolha de sumo dentro do gomo da tangerina, disse a criança. É lá que eu me guardei e comi-o e passou para o dentro do dentro do mais pequeno dos buracos do meu coração.
Esta criança acabou, disse o Medidor de Crianças. É preciso fazer outra.

(Maria Velho da Costa, "O lugar comum", Desescrita, 1973)

segunda-feira, 15 de março de 2010

quem busca a paz longe do mar

Hoje fui ao Bom Retiro, me encontrei com o meu amigo Carlos (o Drummond), o senhor Jorge Amado, o querido Victor Hugo - sem traduções, hein! - e fui apresentada ao camarada Vladimir Nabokov. Não sei ao certo se vamos nos dar muito bem.
Também hoje eu recebi um telefonema feliz, coisa rara, que me trouxe uma notícia boa: fui selecionada para um curso de contação de histórias na Biblioteca Hans Christian Andersen, lá no Tatuapé. Bonita biblioteca, sou uma moça muito sortuda!
Sou uma moça muito sortuda e tenho uma amiga espanhola chamada Alba, que veio diretamente da Universidade de Barcelona... para minha casa e para estudar comigo!
Trabalho muito, o dia todo! No fim do mês, não me sobra um troco!
Talvez passe um tempo morando em república... experiência interessante, eu suponho.
Hoje eu disse a um amigo de riso fácil: "vou dar mais espaço às pessoas, criar laços". Ele disse que pode ser uma escolha arriscada, mas eu vou pagar pra ver.

Tenham uma boa vida e plantem uma árvore hoje!

Da amiga de sempre,

Ana Carolina

terça-feira, 2 de março de 2010

keep it up

Há pouco tempo comecei a treinar malabares. Faz muito bem para mim e, dizem, as bolinhas vão me transformar numa pessoa equilibrada, concentrada...
O princípio do Malabarismo se aplica perfeitamente à vida: continue equilibrando. Aconteça o que acontecer, mermão, continue! E se a bolinha cai... Anos de experiência vão fazer com que você aprenda a salvá-la antes dela chegar ao chão. Há que se cultivar muita malandragem e alegria para que seu espetáculo nunca acabe, para que você tenha sempre um truque novo.
Quem conhece a lenda do Malabarista de Notre Dame?
Era uma vez um camarada pobre, pobre pra caramba! Não tinha nada para oferecer à imagem da Virgem Maria, que parecia triste, mesmo com todos os presentes que recebia dos fiéis. O camarada viu entre os presentes alguns artefatos que lhe seriam muito úteis (bolas, botões, argolas), e pôs-se a fazer malabares em frente à estátua. A Virgem sorriu e ofereceu uma rosa ao talentoso artista!

Riu Maria, mãe de Jesus; só não riu Maria, minha mãe. Se eu ficar boa, será que ela se alegra?
O jeito é praticar... E manter as bolinhas no céu.