quarta-feira, 13 de outubro de 2010

que fique claro

As qualidades, quero dizer, aquilo que as pessoas aparentemente têm de "bom" representam, numa perspectiva otimista, mais ou menos um sexto das razões do meu afeto pela Humanidade.

O meu amor decorre muito mais da fragilidade que eu sinto no outro, e daquilo que me atormenta.

sábado, 9 de outubro de 2010

política e religião se discutem, sim, mas não simultaneamente



Eu acredito em Deus. Ainda que não pareça, já que só entro em igreja uma vez por ano, geralmente para missas de sétimo dia. Enfim, acredito, também, que Deus não acredita em política. Não tem por que acreditar. Política é coisa ruim. É subordinar os irmãos, é deixar milhões à margem de tudo para que uma minoria continue ditando as regras. A política tem sido, por excelência, amiga da enganação. Pelo que sei, tudo começou com os sofistas, aqueles malandros. Persuadir para vencer, nenhum compromisso com a verdade. E pegou.

Uma vez exposta minha opinião, me digam se essa verdadeira guerra santa que está sendo travada entre Serra e Dilma neste segundo turno não é uma grande piada de mau gosto! É um tal de "graças a Deus" pra cá, "valores sagrados" pra lá. CANDIDATOS, NOS POUPEM.
Se os dois se preocupassem apenas em vender suas mentiras entusiastas na tevê, já estava de bom tamanho. Se continuassem naquelas de "vote em mim, sua vida vai melhorar", beleza. Promessas estapafúrdias, que nós sabemos impraticáveis, mas audíveis. Agora, colocar Deus e os valores cristãos na jogada é baixaria. Misturar uma questão de saúde pública a tais valores é hipocrisia. Quem vai dizer que Portugal não é mais tradicionalmente católico do que o Brasil? E o país já legalizou o aborto. E outra, se for para misturar, misturemos: quem vai dizer que garantir uma lei que criminaliza a homofobia vai contra os ensinamentos do JC? É certo atirar pedras?
A lei não busca fazer com que todos aceitem as orientações alheias, é apenas uma maneira de fazer com que as pessoas se respeitem. Num mundo ideal, não seria necessária uma lei para isso, mas nós não vivemos num mundo ideal. A igreja, que deveria incentivar o "fazer o bem sem olhar a quem", desempenha muito bem seu papel de aparelho ideológico do estado, alimentando o repúdio ao diferente.
Também é preciso que esteja claro que a descriminalização do aborto não funcionaria como incentivo da prática. Isso é evidente! Seria só um jeito humano de tratar as mulheres pobres que morrem fazendo abortos em clínicas clandestinas. Porque as mulheres ricas também fazem, mas com todos os cuidados que podem pagar... é por isso que a questão é deixada de lado pelo governo.
Que os candidatos desaprovem o aborto, vá lá, eu também não sou favorável. Aliás, ninguém é. Que merda, isso! Ninguém está dizendo "faça aborto, é bacana". Mas a partir do momento em que eu me proponho a ser chefe de Estado, devo estar ciente das minhas responsabilidades para com o povo. E isso não diz respeito às minhas crenças pessoais.

Olha, no primeiro turno eu votei em um cristão de 80 anos e quem diria: foi ele quem apresentou as propostas mais coerentes, ainda que muitas delas batessem de frente com aquilo que determina a sua fé religiosa. Ele soube separar. Em nenhum momento agradeceu a Deus por estar num debate. Coisa que os outros fizeram, e muito. Parabéns e obrigada, Plínio de Arruda Sampaio. Se Deus acreditasse em política, certeza que Ele votava no senhor.

Este segundo turno está caótico. Eu realmente gostaria que nenhum dos dois candidatos fosse presidente da República. Por enquanto, enfim, seguimos metralhando o mais nocivo.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

mais-valia em um parágrafo

Eu, Carolina, pedante que sou, coloco aqui no blog um texto todo cheio dos conceitos e pressuponho que todos os visitantes deste espaço já tiveram a oportunidade de se deparar com eles em suas vidas. Desculpem-me!

Vou (tentar) explicar a mais-valia. Estudiosos marxistas: saiam daqui!

Então, vamos lá. Em primeiro lugar, para que haja capitalismo, deve-se existir um pretenso trabalhador "livre". Livre para vender sua força de trabalho, mas enfim, livre. Há escravidão na sociedade capitalista, por supuesto, mas a forma de trabalho central é a assalariada. Sem ela, é impossível haver a mais-valia.
Pois bem. Uma vez estando isso claro, é preciso que também esteja claro que o valor de uma mercadoria não está relacionado à sua utilidade: está relacionado ao tempo de trabalho socialmente necessário para sua fabricação. É difícil que a gente aceite isso, porque a mercadoria reflete as características do seu trabalho como se não fossem do seu trabalho, como se fossem dela própria. É o que Marx chamou "fetiche da mercadoria", mas não vou entrar nessa parte, que não domino. Bem, então. O valor de uso é desconsiderado na sociedade capitalista. O que importa é o valor de troca. Por que estou dizendo isso? Ah, sim. Esse valor de troca reflete certas relações sociais de exploração: existe o cara que é o dono dos meios de produção e existe o cara que vende sua força de trabalho. Não vamos entrar num discurso panfletário sobre o que seria o justo, ok? Isso daqui é uma análise, apenas. Foi isso o que Marx fez: partindo de pressupostos burgueses e das explicações superficiais da economia clássica, entrou nos subterrâneos e elaborou sua análise crítica e, digamos, anti-capitalista.
Aí, então. A mais-valia, né.
A mais-valia não é o lucro (ainda). É o tempo de trabalho socialmente explorado. O lucro é a realização da mais valia, ou seja, a transformação da mais-valia em dinheiro. Para ilustrar de maneira bem tosca, pensemos num sujeito que trabalha 10h por dia e tem a ilusão de que recebe pelo seu trabalho. Não recebe, não. Ele recebe por aquilo que produziu em, digamos, 2h. As 8h excedentes são a mais-valia. O patrão vende a mercadoria produzida durante este tempo e compra mais máquinas, o que deixa o empregado mais dependente dele. Este quadrinho é sempre bastante ilustrativo.

Espero ter esclarecido alguma coisa! Perdoem a possível incoerência, levem em conta que eu também sou uma aprendiz. O mais bacana dessa teoria é que ela explica as relações de exploração que se estabelecem até hoje, uma vez que as estruturas do capitalismo permanecem as mesmas... não é fantástico?

sábado, 25 de setembro de 2010

o barbudo já cantou a pedra

"Já vimos como o capital produz a mais-valia e como a mais-valia produz um novo capital. Mas a acumulação do capital pressupõe a mais-valia, como esta pressupõe a produção capitalista, e esta, por sua vez, a concentração nas mãos dos produtores de mercadorias de massas consideráveis de capital ou força de trabalho. Todo esse movimento parece, assim, mover-se num círculo vicioso, de onde não podemos sair a não ser pressupondo, anteriormente à produção capitalista, uma acumulação primitiva que seria não o resultado, mas o ponto de partida do modo de produção capitalista.

[...]

Na história da acumulação primitiva são particularmente importantes as épocas em que grandes massas humanas são repentina e violentamente despojadas de seus meios se subsistência e jogadas ao mercado sob a forma de proletários privados de tudo. Todo o processo repousa sobre a expropriação do produtor rural, do camponês."

MARX, Karl. O Capital. Edição resumida por Julian Borchardt. Tradução de Ronaldo Schmidt. 7ª ed. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1982, p. 171 - 173, grifos meus.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

olhai os muros da rua - pixar é com X

Colou um figurão na UNIFESP para palestrar sobre o fim das vanguardas e os novos caminhos para a arte. "Bacana", pensei, "bom eu dar uma chegada lá, já que não manjo nada dessas paradas aí". Eu estava ajudando na organização, para falar a verdade. Até levei biscoitos para o convidado, um senhor muito simpático.
E começou.
E eu fui até gostando, muito embora ao mesmo tempo me sentisse meio boboca por ter acreditado que o conhecimento de alguns representantes do cubismo, dadaísmo ou abstracionismo, sei lá, já fazia de mim uma pessoa entendidinha. "Caramba, eu não manjo nada, mesmo", pensei.
Hora das perguntas. Ninguém levanta a mão. Estão todos pensando como eu: "qualquer pergunta que eu fizer vai ser rasa, ingênua, sem nenhum embasamento teórico sobre o tema".
E eu só conseguia pensar numa coisa. E martelava, martelava.
Eis que o rapaz de chapéu de palha arranca as palavras de dentro do meu peito, sei lá como ele fez isso, toma fôlego e arrisca: "Professor, e o graffiti, pode ser considerado um movimento de vanguarda?"
O professor silencia por alguns segundos. "Bem", ele diz, "tem que ver..."
E o figurão disserta sobre umas tantas outras coisas que a gente desconhece, cita uns outros tantos pintores, e, mais tarde, chega à seguinte conclusão: "depredação do patrimônio público não pode ser considerada produção artística".
Doutor, e todo aquele papo anterior de arte como estetização da vida? Quer dizer que eu entendi tudo errado?
O graffiti de Nona Iorque ou o pixo de São Paulo representam uma determinada visão de mundo: uma visão carregada de revolta. Revolta pelas condições miseráveis de existência a que alguns devem submeter-se para que outros continuem ditando as regras. A pixação é o meio pelo qual o menino da periferia se expressa, e reflete o que está errado na sociedade, a doença, a podridão. É por isso que gera tanto desconforto. Apenas porque é verdadeira demais.

Agora, pensando direitinho... Se é considerada arte, quando na rua... pouco importa. O fato é que a partir do momento que entra na galeria, deixa de ser pixação, deixa de ser graffiti. Porque perde todo o seu caráter transgressor, caráter de resistência. Vira outra coisa... sei lá o quê que vira! Deve ser vanguarda.

domingo, 29 de agosto de 2010

eleições 2010

Permanece embrutecido aquele que opõe a obra das mãos operárias e do povo que nos alimenta às nuvens da retórica.

RANCIÈRE, Jacques. O mestre ignorante - cinco lições sobre a emancipação intelectual. Tradução de Lílian do Valle. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2007, p. 61.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

para o Mitsu, após um ano

Há onze meses e um dia, meu pai morreu. Durante algum tempo eu fiquei inerte, sem reação, sem chorar, como se não acreditasse. Sonhei com meu pai em absolutamente todos os dias que se passaram desde então, o que me faz acordar um pouco triste. Mas este texto deve ser alegre, e fácil de entender.

Nos dias de maior desespero e desamparo, eu não deixei que ninguém me visse sofrer. Eu fechei os olhos e pensei: "pai, volta" (talvez eu ficasse, mesmo, tentando elaborar um meio de fazê-lo voltar). Acho que acontece mais ou menos assim com todas as meninas que perdem seus pais um pouco cedo demais.

O fato é que, aos poucos, a angústia vai dando lugar a uma estranha e doce calma, como a que eu sentia quando o ajudava a cuidar do passarinho doente que caía da árvore. Meu pai está aqui, dentro de mim. Às vezes, eu sinto muito mais a falta de pessoas que estão do lado de fora, aparentemente "vivas"... Que passam pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, mas nunca deixam que eu me aproxime.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

manha

É que, poxa vida, sem querer ser uma reclamona, mas esse frio parece que vem só pra ficar jogando na minha cara o quanto eu sou uma pessoa sozinha...

terça-feira, 27 de julho de 2010

viajo porque preciso, volto porque te amo


Brasília é uma cidade bastante chata, em todos os sentidos possíveis. Brasília não tem cachorros de rua!! Brasília tem poucos moradores de rua, também. Mas tem! E eles roubam máquinas fotográficas de turistas desavisados que dão bobeira em rodoviária. Brasília tem muita vigilância... e muita gente de roupa social. Você não pode entrar no Congresso Nacional de chinelos, porque isso é uma indecência. Lá dentro é tudo tão limpo, às claras, honesto, a gente tem mesmo é que reverenciar. Até onde eu pude pesquisar, Brasília não tem comida típica. Deve ser porque é muito novinha, a nossa capital. Brasília é insuportavelmente CERTINHA. Os carros param na faixa para você passar, porque lá o trânsito é coisa de primeiro mundo. Nem parece Brasil, dizem.
Brasília é bem pouco verdadeira, mas eu admiro o pessoal que consegue sobreviver por lá. Porque lá nunca chove, e eu não consigo imaginar as condições de vida em um lugar tão seco... A vegetação do cerrado ilustra bem: morte e vida, lado a lado. Em uma semana, devo ter envelhecido uns três anos. Tá, sou exagerada. Mas eu fiquei doente, o que não é muito habitual... Estou feliz por ter voltado para minha cidade úmida e poluída, com poucas árvores, mas cheia de gente dizendo adeus.

Visitei um assentamento rural e a Vila de São Jorge (onde está localizada a Chapada dos Veadeiros), e nesses lugares eu pude encontrar alguns grandes corações, que valeram todo e qualquer pesar pelo qual eu passei, porventura, durante a viagem. Meu grande carinho e agradecimento às pessoas simples e gigantes que nunca cansam de me surpreender.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

férias pra que te quero

E a Espanha foi Campeã Mundial. É um tanto esquisito, não?
Pena, eu estava torcendo para a Holanda... Essa Copa foi a pior de todas, para mim. Todos os times para os quais eu torcia não iam para frente, tive que estudar nos horários dos jogos mais legais... Meu amigo Werner sintetizou bem a coisa: "você tá parecendo o Mick Jagger".

Na próxima semana, se tudo der certo, vou dar uma chegada lá na cova dos leões: Brasília. Acho que vai ser interessante. Durante o restinho das férias, preciso terminar a benedita auto escola, o que me toma um precioso tempo; tempo que eu poderia usar para viajar! Depois de Brasília, estava planejando dar uma passadinha em Pernambuco... mas acho que não vai rolar. Vamos ficar com Minas, e que eu me dê por satisfeita. Ah! Devo dizer que estou economizando - dinheiro e energia! - para a maior viagem de todas... Em breve mais informações.

Estou mudando um pouco o rumo dos meus estudos, e espero não me arrepender. Saio um pouco da Linguística e me arrisco no campo da Educação na Prisão... Eu sou como as ondas do mar: voooooou, voooooolto. Nem sei o que procuro, sou uma indecisa. Isso é bom, porque torna a minha vida pouco monótona.
Terminei o curso de Contação de Histórias. Agora sou uma *cof cof* profissional. Grandes bostas. Meu avô não tinha diploma algum, e eu não chego nem aos seus pés.

Nessas férias eu vou terminar a Anna Karenina. Vou também fazer um bolo de cenoura que é quase um bolo de cenoura de mulher vivida. E daqui pouco tempo minha amiga Alba volta à Barcelona... "Carola, você precisa conhecer minha casa", ela disse, e o meu coração já foi ficando escuro.

De qualquer forma, ainda bem que a Alba existe, e veio encher de sol a vida da Maria, que só fazia chorar! Obrigada, Alba. O que você fez por nós não tem nem nome.

O que dizer? Devo ser, mesmo, uma moça muito sortuda.