domingo, 14 de outubro de 2012

A revolução das formiguinhas

Essa é uma história parcialmente baseada em fatos reais que eu escrevi para crianças. Como vocês poderão perceber, eu e minha mãe também somos personagens. Estava num caderninho, esquecida, mas achei legal compartilhar. Foi escrita depois da Páscoa, eu acho, e transcrevi sem fazer grandes modificações. Achei mais honesto. Qualquer semelhança com Orwell não é mera coincidência. Por ser pensada para crianças, minha pequena fábula tem parágrafos curtos, coisa que eu não gosto muito de fazer, e, como de costume, escrevi de maneira bastante simples. Espero sugestões :-)

CAPÍTULO PRIMEIRO: ESTOCANDO MANTEIGA E RAIVA

Foi um verão de muito trabalho para as formiguinhas, sobretudo durante as festas humanas de fim de ano.
Na casa de Carolina, a ceia era bastante modesta, mas a Dona Maria tinha grande coração e deixou sobre o balcão, pensando justamente nas formiguinhas, duas grandes castanhas. Só aquelas castanhas já garantiam, pelo menos, dois meses de estoque para o inverno.
E trabalharam, trabalharam e trabalharam, as pobres formiguinhas, enquanto a rainha gorda ficava só dando ordens. 
Chegou a Páscoa* e a família de Carolina foi viajar. 
As formiguinhas, trabalhadoras que eram, aproveitaram a deixa para investir nos ovos de chocolate e bombons que a família deixou em casa.
Passaram-se dois dias. As formiguinhas já tinham conseguido levar para o formigueiro metade de um grande bombom com recheio de avelã.
Então, aconteceu.
Sem que tivessem tempo de fazer nada para se defender, as formiguinhas viram muitas de suas companheiras serem esmagadas e afogadas... A família havia retornado e Carolina, menina gulosa, foi direto para a caixa de bombons onde as formiguinhas estavam trabalhando. Quase que por reflexo, devido ao susto, Carolina jogou na pia o bombom cheio de formiguinhas e lavou as suas mãos, também cheia de formiguinhas. 
Seres humanos têm uma mania curiosa de pensar que só eles sentem dor. Decerto sentiram muita dor, as formiguinhas assassinadas naquele fim de tarde, mas a dor delas não saiu no jornal. Exceto na Gazeta Formigueiro, numa chamada de vinte segundos. 
A morte das formiguinhas no trabalho é tão rotineira que se tornou... banal. A Formiga Rainha não paga às famílias das formiguinhas mortas um seguro de vida.
Carolina e sua mãe, no entanto, atormentadas pela culpa, deixaram sobre o balcão da cozinha um grande bombom recheado de avelã; Carolina até cogitou escrever "me perdoem" num cartão, mas pensou bem e viu que era uma ideia bastante estúpida. 
As formiguinhas ignoraram solenemente o bombom. Até hoje não se sabe se por orgulho ou por medo. Ninguém, obviamente, contou à Formiga Rainha sobre essa recusa.
Chegou o inverno e o formigueiro estava fartamente abastecido.
Às formiguinhas trabalhadoras foi distribuído farelo de pão, enquanto a Rainha e os demais membros da nobreza comiam manteiga, castanhas e chocolate.
"Isso definitivamente não está certo", pensava Eleonor, uma formiguinha cujo pai e irmã haviam morrido enquanto traziam alimento para o formigueiro.

CAPÍTULO SEGUNDO: ORGANIZAÇÃO

As formiguinhas trabalhadoras foram convocadas para uma reunião.
Eleonor falava sobre justiça e suas palavras soavam como música nos ouvidos cansados das formiguinhas trabalhadoras. Cada uma delas tinha pelo menos uma história de perda e tristeza para contar. A jornada de trabalho era muito perigosa: era preciso atravessar uma pia onde qualquer passo em falso significaria a morte por afogamento; havia uma grande aranha com uma grande teia; havia o perigo de se prender no melado; havia, enfim, os humanos, tão estabanados e grandes.
As formiguinhas montaram um documento em que exigiam melhores condições de trabalho e entregaram à Rainha. A principal reivindicação era o fim da jornada diurna de trabalho (momento em que os humanos estavam acordados).
A Formiga Rainha leu o documento. Não acreditou e leu de novo. Como assim? Ela estava realmente muito brava com toda aquela subversão. Mandou prender a Eleonor. Disse que aconteceria o mesmo com quem mais a desobedecesse. Distribuiu um pouquinho de manteiga entre as formiguinhas trabalhadoras, para que elas não a detestassem tanto. 
Mas, bem lá no fundo, as formiguinhas sabiam que aquilo tudo estava muito, mas muito errado...

CAPÍTULO TERCEIRO: REVOLUÇÃO

Já estava próxima a Primavera e o estoque das formiguinhas trabalhadoras foi se acabando. Mas ainda estava muito frio para sair em busca de mais. 
As formiguinhas se dirigiram, então, aos aposentos da Rainha. 
Elas já estavam bastante aborrecidas com aquela situação toda, nem era só a falta de comida, elas também não se conformavam com a prisão da Eleonor. 
A Formiga Rainha disse que nada ia fazer, e que elas não mais a incomodassem com essas histórias. Chamou os guardas. 
As formiguinhas trabalhadoras não podiam acreditar... Trabalharam tanto durante a Primavera, Verão e até no Outono, e agora a Rainha lhes negava um punhado de pão?
Era inadmissível.
Era insustentável.
Juntas foram todas as formiguinhas até a delegacia para soltar a Eleonor. Elas falaram e não foram ouvidas. Falaram mais uma vez e mais uma vez não foram ouvidas. Então gritaram. Gritaram e quebraram aquilo tudo. A Gazeta Formigueiro ia dizer que foi depredação do patrimônio público, mas elas não estavam nem aí. Libertaram a Eleonor. 
Foram todas juntas até os aposentos da Rainha e cortaram-lhe a cabeça. 
Dividiram todo o chocolate, a manteiga e as castanhas que a rainha gorda escondia para comer sozinha. Só precisaram trabalhar no verão. Agora, pela primeira vez, para elas mesmas.

*Festa humana em que se celebra o renascimento de alguém muito influente com distribuição de chocolates.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

sobre aeroportos

O aeroporto é o lugar mais triste do mundo. 
Hoje Ramon chegou de viagem e fomos lá buscá-lo. Tanta mala, tanto sonho, tanto souvenir, tanta fotografia, tantos amigos, tantas línguas; nossa, um aeroporto é cheio de tudo. Eu me sinto cheia de nada. Existe pouca coisa dentro de mim, além de espera.

Às vezes dói ficar aguardando o sinal esverdear para a vida que a gente sempre sonhou. Sensação de uns 90 anos de frustração nos meus ombros de 21...

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

tratamento pra solidão

Peguei costume de escrever num caderninho, se possível pela manhã, todos os meus sonhos. Bem rápido, antes de esquecer. Vou compartilhar um deles... 

Sonhei que estava com dor de cabeça e o Rodrigo me levava até um hospital. A gente ia correndo, meio flutuando, por uns caminhos desertos que eu nunca conheci. Então chegamos lá. 
Era um hospital com estrutura de hospital mesmo, normal, só que os pacientes eram bizarros: uma galera com o cérebro para fora da cabeça, com a pele toda vermelha, com umas feridas horríveis... Eu, intrigada com aquilo tudo e esperando meu atendimento, que nunca acontecia, perguntei à médica que por ali passava: "qual a especialidade desse hospital?". A médica tranquilamente respondeu: "Solidão. Aqui a gente trata da solidão."

Vou parar por aqui. O interessante é que no dia em que sonhei isso o meu vizinho se matou com um tiro na boca. Será que ele foi se tratar nesse hospital aí? 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

empregue-me e não se arrependerá

Vejam bem, agora eu tenho um curso superior. Sei sistematizar algo de Marx, algo de Piaget, algo de Durkheim, algo de Paulo Freire, algo de Vygotsky. Eu escrevo direitinho, eu entendo bem inglês, tento falar, se for preciso, meu francês é super, meu espanhol é bacana. Eu sou uma contadora de histórias profissional. Eu acordo cedo sem maiores problemas. Eu gosto de descobrir coisa nova, estou sempre disposta a escutar. Eu sou criativa, juro, e eu fico mais criativa ainda quando junto das crianças. Eu tenho uma porção de jogos legais de alfabetização, e sou paciente. Eu nunca parei de estudar, nunca parei de aprender, nunca deixei de ensinar. Sou curiosa demais, demais, demais. Absorvo com igual amor e dedicação tudo aquilo que posso aprender com o intelectual ou com a trabalhadora rural. Sou um pouco teimosa, distraída e desorganizada, mas isso a gente vai melhorando, né? Eu já trabalhei bastante apenas pela causa, mas, acreditem, preciso pra caramba de dinheiro. Pra caramba. 

Preferências profissionais:
Professora de educação infantil, ensino fundamental I (antiga 1ª a 4ª série) e EJA;
coordenadora pedagógica em alguma ONG que trabalha com sujeitos encarcerados ou moradores de rua;
guia pelas cachoeiras da Chapada dos Veadeiros;
guia de turismo em Olinda;
caseira num sítio bonito (esqueci de mencionar minhas habilidades com a botânica);
escritora de livros infantis;
astronauta.

Infelizmente, não aceitarei ofertas para vagas de mergulhadora. Morro de medo do fundo do mar. 

segunda-feira, 21 de maio de 2012

isso não é sobre a Xuxa

Em 18 de maio se celebra o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Exatamente em 18 de maio eu li um relato repugnante envolvendo um motorista de ônibus da UNIFESP e uma criança da qual ele abusou covardemente, em pleno exercício de sua função. Prefiro não dar detalhes sobre o ocorrido enquanto os fatos não são apurados, mas deixo aqui meu total repúdio por esse homem, que representa tantos outros homens, e por toda essa injustiça social que condena milhões de meninas e meninos à absoluta falta de cuidados. 
Ontem, em rede nacional, horário nobre, a Xuxa revelou que sofreu abuso da infância até a adolescência. É claro que no mesmo momento apareceram todos os especialistas do twitter e do facebook opinando sobre o caso. Que, ah, se ela quisesse lutar contra o abuso sexual, devia ter feito isso antes. Tá em crise e quis chamar a atenção. Outros preferiram analisar psicanaliticamente o comportamento infantilizado da Xuxa. O que todo mundo parece não ter notado, talvez devido à edição sensacionalista do Fantástico, é o quanto o abuso é surpreendentemente cotidiano. Acontece com mais gente do que podemos imaginar. A Xuxa ter ido lá expor seu sofrimento em rede nacional faz dela, sim, uma mulher corajosa. Não importa se é a Xuxa, não importa se é na Vênus Platinada. Aliás, importa, sim, quando pensamos na repercussão que o quadro teve e no tanto de gente que ela possivelmente influenciou a falar sobre o assunto.
Outro aspecto importante do depoimento foi o pedido de atenção àquilo que as crianças nos dizem. Precisamos compreender, inclusive, o que nos diz o silêncio delas... Tão significativo. "Se perguntarem hoje", disse a Xuxa, "por que aconteceram as coisas comigo, eu ainda vou achar que foi minha culpa". E acontece assim com todas as crianças humilhadas. Não há quem consiga viver em paz em meio a tanta culpa internalizada e solidão. É preciso abrir os olhos e ouvidos, prestar atenção nas crianças do bairro, da família, nas crianças que vivem na rua... Isso não é sobre a Xuxa e os seus problemas de relacionamento. Isso é sobre quantos/as adultos/as atormentados por uma infância ruim em cada geração a gente tem o poder de evitar. Isso é sobre quantas crianças invisíveis a gente pode - e deve - perceber e ajudar, todos os dias.

domingo, 22 de janeiro de 2012

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Férias




Quem não tem Olinda vai de quintal...

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Balanço de Carolina

Quando eu prestei vestibular, lá em 2007, eu tinha dezesseis anos. Passei e comecei o curso de Pedagogia com dezessete. Muita gente já demonstra extrema maturidade com essa idade, já trabalha e tudo. Eu não. Eu, como dizia meu pai, só queria iê iê iê coca-cola... Eu nem queria estudar. Eu nem sabia o que fazer com um curso superior. Meu sonho, à época, era pegar uma mochila e sair por aí. Como se para isso eu só precisasse do meu espírito sagitariano aventureiro...
Eu era uma menina um pouco melancólica e cheia de espinhas. Queria nunca mais ter rotina. Bom, querer eu ainda não quero, mas... A faculdade foi me trazendo algumas responsabilidades com as quais não estava habituada a lidar, como trabalho para casa! Veio uma pesquisa com uma professora bem durona, e eu voltei a estudar francês. Vieram alguns amores que não deram certo. Veio muito conhecimento e muito movimento estudantil pelo caminho.
Veio setembro de 2009. Passarinho que era, meu pai caiu bem devagarzinho e leve, sem espanto. E ninguém sofreu mais do que eu.
Ainda bem que o tempo passa. Veio um partido político, meus sonhos até couberam dentro dele, por um tempo, e isso me preencheu. Veio uma cachorrinha que come todas as minhas flores, veio um corte moderninho de cabelo, veio uma porção de cidades por esse Brasil que eu tive a alegria de poder conhecer, veio a Catalunha, veio um até um namorado! E como me ama, o namorado. Ele é, mais ou menos, digamos, o meu avesso. Ele fica fascinado com o modo como eu conto as minhas aventuras. De como eu quase morri afogada em Porto de Galinhas, de como eu sobrevivi a tantos lanches vencidos, de como eu quase fui atropelada por um caminhão, como eu andei por horas a fio sob o sol em busca de água. De repente minha vidinha toma contornos tão bonitos.

Lá vem o trem 2012 e eu já estou de malas prontas.

domingo, 13 de novembro de 2011

Marx e Peuchet

"... e até o próprio amor à vida, essa força enérgica que impulsiona a personalidade, é frequentemente capaz de levar uma pessoa a livrar-se de uma existência detestável.

[...]

A classificação das diferentes causas do suicídio deveria ser a classificação dos próprios defeitos de nossa sociedade"

Indico a leitura... "Sobre o suicídio", essencial na compreensão do pensamento de Marx para além das questões econômicas; fundamental para a discussão sobre o patriarcado que faz das mulheres as suas maiores vítimas.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

falta pouco para eu "me formar"

Eu gosto muito dessa letra que parece letra de máquina de escrever. Aliás, uma máquina de escrever foi um dos presentes mais legais que eu já ganhei nessa vida.

Hoje eu li todos os textos que deveriam ser lidos e terminei um capítulo do meu TCC, que caminha a passos largos para o sucesso. Quer ir me ver? Minha defesa vai ser na primeira semana de dezembro. O título do meu trabalho é "Do ideário socialista à prática de se passar a mão na cabeça de bandido: a vida da Carolina é uma doidera".

Recebemos na UNIFESP a ilustre visita do REItor, uma figura absolutamente deprimente que fugiu de todos nós, estudantes, como se fosse uma ratazana. Nem vou perder meu tempo escrevendo sobre esse escroque. Na verdade eu só citei aqui porque foi um acontecimento do dia e eu queria chamar o Albertoni de "ratazana" publicamente.

Hoje eu vou ver Pearl Jam. Tô sentindo que eles vão tocar todas as músicas que eu pedir, só porque eu fui uma ótima menina no decorrer desse ano. Meu anjinho Rodrigo que o diga...


(ps.: é mais fácil acreditar no título do meu trabalho ou no meu comportamento inquestionável durante 2011?)