terça-feira, 15 de julho de 2014

A canção dos meninos de rua

Como se sabe, sou educadora social e trabalho com população em situação de rua. Adultos, homens em sua maioria. Ontem aconteceu um episódio interessante e eu gostaria de compartilhar com vocês.
Estávamos tomando café e um rapaz chegou cantando uma música. Um rap sobre violência e drogadição. Imediatamente os outros o acompanharam e, ao final, se olharam com identificação e um deles perguntou: "então você também foi menino de rua?". O que puxou a música afirmou e disse que aquela ele tinha aprendido na FEBEM. Eu perguntei quem era o compositor e eles me explicaram que ninguém tinha inventado a música, ela simplesmente se criou em meio aos meninos e meninas de rua, e que ela pertencia a quem a cantava. E depois me ensinaram outras. 
Eu pedi permissão para anotar algumas letras; elas são fortes e, a seu modo, educativas. De um jeito torto e forte cunho moral, alertam para o perigo das das drogas e falam do "mundo do crime":

No primeiro assalto você leva a sorte 
Escapa da polícia e também escapa da morte 
No segundo assalto as coisas não vão bem 
Escapa da polícia, mas cai dentro da FEBEM 
No terceiro assalto seu destino está selado 
Você pela polícia acaba sendo baleado 
Com uma bala na cabeça e outra no coração 
É mais um fim de um ladrão
E os que não morrem continuam a roubar
Para não morrer começam a matar 

A violência policial, absolutamente naturalizada, aparece como o fim esperado para um ladrão. E a única saída possível para a violência é a própria violência. Para não morrer, começam a matar: é tão verdadeiro que dói. No completo abandono em que vivem, essas crianças inventaram sua própria escola, seu próprio jeito de se colocar diante do mundo que só lembra que existem no momento em que roubam e matam. Como na célebre música do Planet Hemp, "tentando gritar do seu jeito infeliz que o país os deixou na desgraça". Enquanto a infância de tantos de nós foi embalada por cantigas de roda que falavam sobre peixinhos, caranguejos e anéis quebrados, esses meninos e meninas inventaram canções que retratam seus sofrimentos mais cotidianos, sua luta diária por sobrevivência, suas perdas e seus medos. E infância é época de bravura, mas também de medo. 
A sociedade deveria se chocar com o fato de existir a expressão "meninos de rua". Deveria se espantar mais ainda com o fato de eu trabalhar com homens de 23, 24, 25, 30, 35, 40 anos que cresceram e se criaram na rua. Seres humanos que nunca tiveram um lugar para chamar de casa. Ou tiveram, por um período frágil de tempo, e logo voltaram para a rua.
Viver na rua não é opção. Se esses sujeitos estão na rua, é porque todas as instituições falharam com eles, e a culpa também é nossa. Falhou a família, a escola, a igreja, fecharam-se todas as portas. E as crianças continuam a cantar suas canções, nos bueiros do centro, debaixo dos viadutos, na sua calçada... basta ter ouvidos para escutar.

Um comentário:

Leonardo Afonso disse...

Parabéns, Carol, por seu trabalho. Mesmo quem fica indignado com a situação raramente tem a chance de realmente conviver com essas pessoas e ouvi-las. Beijo!