domingo, 22 de janeiro de 2012

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Férias




Quem não tem Olinda vai de quintal...

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Balanço de Carolina

Quando eu prestei vestibular, lá em 2007, eu tinha dezesseis anos. Passei e comecei o curso de Pedagogia com dezessete. Muita gente já demonstra extrema maturidade com essa idade, já trabalha e tudo. Eu não. Eu, como dizia meu pai, só queria iê iê iê coca-cola... Eu nem queria estudar. Eu nem sabia o que fazer com um curso superior. Meu sonho, à época, era pegar uma mochila e sair por aí. Como se para isso eu só precisasse do meu espírito sagitariano aventureiro...
Eu era uma menina um pouco melancólica e cheia de espinhas. Queria nunca mais ter rotina. Bom, querer eu ainda não quero, mas... A faculdade foi me trazendo algumas responsabilidades com as quais não estava habituada a lidar, como trabalho para casa! Veio uma pesquisa com uma professora bem durona, e eu voltei a estudar francês. Vieram alguns amores que não deram certo. Veio muito conhecimento e muito movimento estudantil pelo caminho.
Veio setembro de 2009. Passarinho que era, meu pai caiu bem devagarzinho e leve, sem espanto. E ninguém sofreu mais do que eu.
Ainda bem que o tempo passa. Veio um partido político, meus sonhos até couberam dentro dele, por um tempo, e isso me preencheu. Veio uma cachorrinha que come todas as minhas flores, veio um corte moderninho de cabelo, veio uma porção de cidades por esse Brasil que eu tive a alegria de poder conhecer, veio a Catalunha, veio um até um namorado! E como me ama, o namorado. Ele é, mais ou menos, digamos, o meu avesso. Ele fica fascinado com o modo como eu conto as minhas aventuras. De como eu quase morri afogada em Porto de Galinhas, de como eu sobrevivi a tantos lanches vencidos, de como eu quase fui atropelada por um caminhão, como eu andei por horas a fio sob o sol em busca de água. De repente minha vidinha toma contornos tão bonitos.

Lá vem o trem 2012 e eu já estou de malas prontas.

domingo, 13 de novembro de 2011

Marx e Peuchet

"... e até o próprio amor à vida, essa força enérgica que impulsiona a personalidade, é frequentemente capaz de levar uma pessoa a livrar-se de uma existência detestável.

[...]

A classificação das diferentes causas do suicídio deveria ser a classificação dos próprios defeitos de nossa sociedade"

Indico a leitura... "Sobre o suicídio", essencial na compreensão do pensamento de Marx para além das questões econômicas; fundamental para a discussão sobre o patriarcado que faz das mulheres as suas maiores vítimas.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

falta pouco para eu "me formar"

Eu gosto muito dessa letra que parece letra de máquina de escrever. Aliás, uma máquina de escrever foi um dos presentes mais legais que eu já ganhei nessa vida.

Hoje eu li todos os textos que deveriam ser lidos e terminei um capítulo do meu TCC, que caminha a passos largos para o sucesso. Quer ir me ver? Minha defesa vai ser na primeira semana de dezembro. O título do meu trabalho é "Do ideário socialista à prática de se passar a mão na cabeça de bandido: a vida da Carolina é uma doidera".

Recebemos na UNIFESP a ilustre visita do REItor, uma figura absolutamente deprimente que fugiu de todos nós, estudantes, como se fosse uma ratazana. Nem vou perder meu tempo escrevendo sobre esse escroque. Na verdade eu só citei aqui porque foi um acontecimento do dia e eu queria chamar o Albertoni de "ratazana" publicamente.

Hoje eu vou ver Pearl Jam. Tô sentindo que eles vão tocar todas as músicas que eu pedir, só porque eu fui uma ótima menina no decorrer desse ano. Meu anjinho Rodrigo que o diga...


(ps.: é mais fácil acreditar no título do meu trabalho ou no meu comportamento inquestionável durante 2011?)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

prece

que eu sinta menos ódio, e seja paciente

que eu aprenda a perdoar

que eu crie intimidade comigo mesma

que eu sinta menos ódio, e seja paciente

que eu me culpe menos

que a saudade me abrace como uma amiga

que eu sinta menos ódio, e seja paciente

que a alegria me visite de vez em quando

que nada me pese, nem a roupa

que eu sinta menos ódio, e seja paciente

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

noite passada eu sonhei

Noite passada eu sonhei com meu pai. Ah, vocês vão dizer, lá vem ela de novo! Acreditem, nem eu me aguento mais. Chega, Carolina, chega de fazer deste blog um espaço para se falar da morte do seu pai. Eu tento mudar o assunto, juro que tento. Mas está na minha cabeça o tempo inteiro.

Por favor, por tudo que é sagrado, não fiquem assim quando a morta for eu. Por favor, sigam suas vidas e não fiquem falando de mim a cada cinco minutos, não percam horas de sono chorando. Passa tudo tão depressa e é tão pesado, tão pesado. Como dizia a menina de um livro que eu li certa vez, quando já se tem seu quinhão de tristezas, não se deve procurar mais.

O sonho, eu preciso dizer, foi grandioso. Como todos os outros que tive com ele (foram mais ou menos 730). Ele voltava para ficar comigo por um dia e eu -- fraca -- não conseguia aproveitar, não conseguia nem falar com ele direito. Só ficava pensando: "daqui a pouco ele vai embora, e como vai doer, daqui a pouco ele vai embora de novo..." enquanto as preciosas horas iam passando e ele fazia suas caretas engraçadas para mim.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

aconteceu agora

As minhas mãos ainda estão tremendo, o coração acelerado, mas quero experimentar a sensação de escrever neste estado.

Assitia a um filme quando ouvi os gritos de "Socorro, ah, meu Deus!!". O drama saiu da TV e estava na minha rua... Um homem só de cueca com sua batata da perna completamente pendurada agonizava e gritava de dor na frente da minha casa. O portão da vizinha violado. Em poucos minutos a rua já estava cheia, porque ele gritava muito alto, e os buchichos começaram. Gente falando que era bem feito, e que tinha é que ter machucado mais, quem manda ficar pulando no portão dos outros pra roubar. Interrogatórios absolutamente descabidos para o momento atormentavam o já atormentado moço (ressalto: só de cueca). Completamente alterado. Afirmando que viu alguém roubando sua moto, e que ele morava na nossa rua. Ninguém acreditando, porque ninguém o conhecia. "Essa bosta vem morrer na frente da minha casa!", disse o senhor que vai à missa todos os domingos. Chamei a ambulância e, trinta minutos depois, quem chegou foi a polícia, também cheia dos interrogatórios inapropriados. "Não importa o que ele fez, ele precisa de assistência", argumentei pro policial, profissional totalmente despreparado que não tirava a mão da sua arma. Uma arma contra um rapaz drogado de cueca se arrastando pelo chão com a perna pendurada. Um monte de juízes em volta.
A Maria já não aguenta ver gente passando mal assim, e ver tanta maldade. Começou a tremer e tremer e a lembrar de quando era o meu pai que estava caído no chão, nas mãos dela.

E chegou a ambulância! O rapaz enfim conseguiu dizer onde ficava a casa onde morava (para a Maria, a única que foi falar com ele sem desconfiança) e outros vizinhos explicaram que ele não pulava o portão para roubar. Deu um soco pedindo ajuda e amassou a chapa de ferro. Tudo esclarecido. Os olhares de reprovação permaneciam, como quem diz "drogado merece isso". Como tem gente doente em volta de mim.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

para criar passarinho


Já que está chegando o dia dos pais e esse será o meu segundo dia dos pais sem pai, comprei um livro para a parte dele que ainda vive em mim. Diz o livro:

"Para bem criar passarinho há que se sonhar borboleta, anjo ou estrela cadente. É importante ter imensas intimidades com o nada, admirar o vazio e um especial encantamento pelo azul que existe muito depois das nuvens, infinito adentro.
(...)
Para bem criar passarinho é necessário prender o universo - dos mares ao firmamento - em uma gaiola respirando azul e infinito por todos os lados. É seguro declarar que nenhum espaço é demais para os voos. Para bem criar passarinhos é preciso experimentar as asas, sempre."

Bartolomeu Campos de Queirós

sexta-feira, 29 de julho de 2011

julho

"A menina tá descendo".

Eu passo por um aparelho que apita, por uma mulher fardada que me revista, deixo todos os meus pertences, passo por um grande portão com um grande cadeado, há um pequeno jardim, eu já posso ver as primeiras calças amarelas a trabalhar sob o sol de inverno. Passo pela administração, onde trabalham as calças amarelas que andam rebolando e usam maquiagem. Mais um portão grande com um cadeado grande, mais um, mais um... chego ao setor da Educação, onde há calças amarelas responsáveis por arrumar aquela papelada toda. Mais um portão grande e estamos na "gaiola". Passamos pelo maior corredor do mundo, onde há calças amarelas andando em sentidos contrários ao nosso. E então lá estou eu. A escola do presídio, exatamente no centro dos pavilhões de moradia. O carcereiro mais boa gente do Brasil me diz que eu posso ficar o tempo que eu precisar, e se retira. Só eu e as calças amarelas.
Eu falo do meu trabalho, eles falam de suas vidas, eu tento absorver tudo, tudo, tudo, mas eu não anoto nem gravo nada, eu realmente não consigo... É forte, forte, forte. Meninos, vamos sair dessa sala fria e ir ali tomar um sol? Eu não me importo com tudo o que vocês já fizeram. Menina de cabeça comunista e burra, presta atenção! Enquanto você pensa bobagens eles já falaram uma porção de coisas.
Por que disseram que eu descia, se não há descida alguma?
Uma das calças amarelas me diz que sente saudade de sentar na calçada de casa e de conversar com os vizinhos; me fala de como é pesado o ambiente em que vive, e de todas as acrobacias que desenvolve para lidar com a culpa e a solidão. Sou acometida do sentimento mais terno do mundo e por uma fração de segundo me movo em sua direção, no impulso de abraçá-lo.

Todos os dias, depois do presídio, me sinto como uma criança que chora sem saber apontar onde dói.